A Europa atingiu um marco histórico na transição energética. Pela primeira vez, a geração elétrica proveniente de fontes eólica e solar superou a produzida por combustíveis fósseis em 2025. Segundo o relatório European Electricity Review 2026, da organização britânica Ember, as duas fontes responderam por 30,1% da eletricidade da União Europeia (UE), enquanto todas as fontes fósseis somadas ficaram em 29%.O resultado representa uma virada simbólica e estrutural no setor energético europeu, um continente que, até pouco mais de uma década atrás, dependia fortemente do carvão e do gás importado para abastecer suas economias.Energia limpa em alta: recorde solar e declínio do carvãoO avanço foi puxado principalmente pelo crescimento recorde da energia solar, que aumentou sua geração em 20% em apenas um ano, alcançando 369 TWh — o maior volume já registrado na história da UE. Desde 2020, a geração solar mais do que dobrou, impulsionada pela instalação de 65 GW de novas capacidades em 2025, metade em telhados residenciais e comerciais.Já a energia eólica manteve sua posição como segunda maior fonte elétrica do bloco, representando 17% da matriz, mesmo com a redução de ventos em algumas regiões no início do ano. No total, as renováveis responderam por 48% da eletricidade europeia, permanecendo estáveis mesmo diante de condições climáticas atípicas.Enquanto isso, o carvão atingiu seu menor nível histórico, representando apenas 9,2% da geração, e o gás natural, apesar de um leve aumento em 2025 (+8%), segue 18% abaixo do volume pré-crise energética de 2019.“Este é um momento marcante para a Europa. O desafio agora é reduzir a dependência do gás e investir em soluções que aproveitem todo o potencial da energia limpa”, destacou Beatrice Petrovich, analista sênior de energia da Ember.Baterias e redes inteligentes: o próximo passo da transiçãoCom a expansão das fontes intermitentes, o relatório ressalta que a flexibilidade do sistema elétrico será o grande desafio da próxima fase da transição. O uso de baterias de grande escala cresceu rapidamente em 2025: a capacidade instalada ultrapassou 10 GW, mais que o dobro de dois anos antes. A previsão é que, se todos os projetos em desenvolvimento forem concluídos, a Europa ultrapasse 40 GW de armazenamento até 2028.Essas baterias já começam a atuar nos momentos de maior uso de gás, principalmente nos picos de consumo noturno, e podem reduzir significativamente os custos de energia. Na Itália, por exemplo, o armazenamento de energia solar deslocada para o período da noite custou, em média, €64/MWh, enquanto a geração a gás atingiu €111/MWh.Além disso, a integração de redes elétricas entre países e o investimento em interconexões e digitalização são apontados como fundamentais para estabilizar o sistema e evitar o desperdício de energia limpa, um problema crescente com o aumento das instalações solares.Segurança energética e independência do gásA dependência europeia do gás importado agravada pelas crises geopolíticas dos últimos anos foi outro ponto central do relatório. Em 2025, a UE aumentou sua conta de importação de gás em 16%, alcançando €32 bilhões, devido à queda na geração hídrica e ao uso de gás em horários de pico.Mesmo assim, o bloco aprovou, em dezembro de 2025, uma legislação para banir completamente o gás russo até 2027. O desafio, segundo a Ember, será evitar a substituição dessa dependência por novas fontes externas, como o gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos.Para isso, o investimento em energia solar, eólica e armazenamento local é visto como a principal estratégia para fortalecer a segurança energética e proteger os consumidores das variações do mercado global de combustíveis fósseis.